terça-feira, 3 de abril de 2012

Tirando o escorpião do aquário ou... O desafio de saudar o Sol




“Eu não me identifico nem um pouco com o signo de Virgem, esse horóscopo deve estar errado”. “ Nossa, eu sou super tímida, não tenho nada a ver com o signo de Gêmeos, que dizem ser tão falante e comunicativo”. “Eu sou canceriana e não sou nem um pouco família!”. Já ouvi comentários assim de muitas pessoas e não deixo de pensar que elas têm razão. Eu nasci sob o signo de Escorpião, e como toda boa escorpiana, tenho o maior orgulho do meu signo, adoro ser o “bicho ruim do zodíaco”, mas confesso que muitas vezes também sinto esse incômodo. Acho que tenho algumas características, mas me faltam muitas outras das que descrevem o comportamento de Escorpião.

Algumas destas dúvidas foram esclarecidas quando o Joel Aleixo, com sua sábia visão alquímica da astrologia, bateu o olho no meu mapa e disse: “Você tem Sol em Escorpião na casa 11, que é a casa de Aquário, ou seja, você é uma aquariana que nesta vida veio aprender a ser Escorpião. Este é seu desafio!”. O Joel sempre nos fala que os signos são os desafios que se fazem às casas e aos planetas, e isso muda bastante a visão que temos da astrologia e do mapa astral. Ele diz que os planetas que temos nas casas se referem a experiências de outras vidas, e o signo é o novo, o desafio que o espírito se propôs, uma nova qualidade que vem desenvolver.

Isso é muito interessante, porque mostra o quanto vivemos apegados ao passado, às velhas experiências, e às vezes passamos a vida toda repetindo antigos padrões e fugindo do novo. Uma astróloga cármica leu meu mapa e disse: “Você tem Sol, Mercúrio, Marte, Urano e a cabeça do dragão no signo de Escorpião, na casa de Aquário. Seus planetas são bem claros, eles não aceitam velharias!”. O Joel falou: “Seu desafio é mudar, se transformar, se desapegar, renascer”. Fácil, não?

Vocês já repararam como todo Escorpião tem uma dificuldade imensa de mudar? É sistemático, apegado, fixo. Justamente porque esse é o desafio do bicho, e não sua maior facilidade! A vida irá, dolorosamente, proporcionar-lhe inúmeras mortes e renascimentos, justamente pra ensinar ao danado que nada é para sempre, que tudo é cíclico, que tudo se transforma, mas que o espírito nunca morre.

E o Aquário e a casa 11, onde entram nesta história? Aquarianos são seres muito inteligentes, mas têm uma dificuldade: se entregar, mergulhar de cabeça, sentir até os ossos, algo que estaria mais ligado à tarefa de escorpião. Vivem olhando para o futuro, e às vezes se esquecem de viver o presente e de considerar a importância do passado. Além disso, são teimosos, rebeldes sem causa, adoram botar tudo abaixo. Eu confesso que tenho uma verdadeira paixão por tudo isso. Aquário também traz renovação, mas precisa aprender que só vale a pena destruir se for para reconstruir depois, usando sua criatividade. Deve aprender que um futuro diferente só se constrói após limparmos a sujeirada do passado, algo que só pode ser feito no tempo presente. E deve ser isso que Escorpião, junto ao ascendente em Capricórnio, tem para me ensinar. Também nunca tinha entendido bem esse ascendente em Capricórnio, e quase chorei quando descobri que tinha o bode assim, tão em destaque no meu mapa. Tinha a maior implicância com os capricornianos, achava uma galera chata, sem graça...hehe, Jung explica! Mas em meio a aquários e escorpiões, alguém tinha que vir para colocar ordem nesse caos.

Ontem, na aula de yoga, a professora estava intrigada, pois eu estava tendo dificuldades em fazer uma mini saudação ao Sol. Estava toda atrapalhada, enquanto fazia outros movimentos e posturas com mais facilidade. Ficamos conversando sobre o significado disso, já que cada postura trabalha determinadas questões físicas e emocionais, quando ela me perguntou: “Por acaso você tem uma falta de flexibilidade em relação à vida?” E eu disse: “Siimmmm!! . E ela: “Então está explicado”.

A mudança sem flexibilidade certamente se torna mais difícil! Mas a rigidez nada mais é que a defesa do medo. É que às vezes não é fácil dar boas vindas  ao escorpiônico Sol que ilumina as trevas e dizer: “Pode chegar, arrebente com tudo, apodreça tudo o que é velho, vamos acolher a morte, entregando a ela tudo o que não serve mais às forças da vida”. Dá um medo de que no final não sobre nada. Deve ser por isso que tanta gente teme o Escorpião. Ter seus cantos mais obscuros iluminados por esta luz denunciadora não é mesmo nada agradável. Com isso, não quero dizer que meu desafio é mais difícil que o dos outros signos. Obviamente, para mim só é mais difícil porque é o meu.

Na casa onde eu morava com meus pais lá no interior, quando criança, tinha um sótão enorme, entre o teto e o telhado da casa. Não sei como se chama isso, deve ser forro, ou algo assim. Para entrar ali, havia um pequeno alçapão, e meu pai sempre me fazia subir por ele quando queria achar alguma coisa, já que eu sempre fui pequena (e naquela época era bem leve também!), e entrava e saia dali com a maior facilidade. Eu confesso que embora tivesse um pouco de medo, me orgulhava de ser responsável por aquela missão. Ao mesmo tempo que me assustava, instigava minha curiosidade e me deixava vaidosa por só eu poder entrar naquele lugar escuro e saber de todas as velharias que estavam guardadas ali.

Acredito que a missão de Escorpião, com a qual tenho entrado mais conscientemente em contato nos últimos tempos, seja algo bem parecido com isso. Entrar nos sótãos da alma, iluminar a escuridão, encontrar a sujeira, a velharia, os ratos e as baratas, mas sem jamais se apegar ou se identificar com tudo isso. Outro desafio, é saber silenciar e guardar segredo sobre o que foi encontrado, pois nem tudo o que se encontra no sótão é bonito ou bom de se olhar, e poucos são os que desejam ter sua sujeira exposta por aí. Olhar o sótão escuro, mas extrair dali apenas o que ainda pode ser aproveitado, transformado, renovado, lembrando de depois olhar para a frente e seguir em direção ao futuro, como bem ensina Aquário. O que já apodreceu, eliminar, entregar para a terra capricorniana, pois só a força do tempo e a sabedoria da nossa Grande Mãe, em seu ventre escuro, tem o poder da transmutação total.

Seguirei me esforçando na saudação...a reverência sempre há de ser um bom caminho!




terça-feira, 20 de março de 2012

All we need is love: um lar para Osvaldo





Sábado fui com minha irmã Andréa no Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Estava tendo uma feira de adoção,  há tempos ela queria adotar um cachorro, e achou que esta seria uma boa oportunidade. Fomos eu, ela e o João, nosso irmão.

Chegando lá, pensei que não fosse aguentar. O barulho dos latidos era ensurdecedor, além do cheiro não ser lá essas coisas, pois havia mais de 500 animais em exposição, entre gatos, cachorros e cavalos. Mas o que mais impressionava era a visão de tantos bichos abandonados, tristes e carentes. Alguns tinham sido tão maltratados, que tremiam com a mera aproximação de um ser humano.

 Porém, com o passar do tempo, os ouvidos, o nariz e o coração vão se acostumando e a gente começa a se dar conta de uma outra realidade. A de que existem pessoas que realmente se importam com os animais e trabalham ali por amor e com a máxima dedicação. O Caio, que foi o moço que nos ajudou, e a outra mocinha que infelizmente esqueci o nome, e que está se preparando para entrar na faculdade de veterinária no ano que vem, foram super atenciosos e nos deram uma verdadeira aula de humanidade e cidadania.

Foi neste clima que conhecemos o Osvaldo, que naquele momento ainda se chamava Mickey. O Caio foi até a gaiola e nos mostrou o vira-lata, que embora simpático, parecia um tanto arredio. Minha irmã foi com o focinho dele logo de cara e logo decidiu levá-lo para casa, dando início ao processo de adoção. Como marinheiros de primeira viagem, chegamos lá de mãos abanando, pois não sabíamos que era necessário levar coleira, comprovante de residência e outras documentações. Mas ainda assim, o Caio, que a partir de então se encarregou do processo, fez de tudo para facilitar, pois queria de verdade encontrar uma família para o Mickey. Confessou que no princípio eles não eram muito chegados e que o cão não ia muito com a cara dele, até que um dia ele decidiu: “Vou ter uma conversa com esse cachorro!”. A partir de então, tornaram-se amigos.

Ao conversarmos com o veterinário, ficamos sabemos que a ficha do cão não era das mais limpas, e que ele tinha fama de traiçoeiro, hiperativo, latidor e mordedor. De fato, no primeiro contato, ele não se mostrou muito amigável, estava irritado, agitado, latiu e mostrou os dentes para todos os fotógrafos que vieram documentar sua adoção. Confesso que fiquei meio tensa, pensando em como tudo isso iria acabar. Mas minha irmã não parecia muito preocupada, e meu irmão foi imediatamente adotado pelo cachorro, como bem observou o veterinário.

Este veterinário, aliás, merece um parágrafo só dele. Um tipo de uns quase cinquenta anos, com o cabelo grisalho e brinquinho de argola na orelha esquerda, com uma cara de desconfiado e um comportamento que beirava a agressão: “As pessoas vem aqui, pensam que é festa., levam o bicho embora e depois voltam querendo devolver. Tenha a santa paciência, tão pensando que isso aqui é o que? Cada vez que vai embora um, entram cinquenta! Isso sem falar nos que abandonam na rua. O cara vem aqui, pega o bicho que já foi abandonado e abandona de novo! Mas agora, o bicho tem chip, é rastreado e a gente vai saber tudo o que está acontecendo com ele”. Para mim, a indignação do homem chegava a ser comovente, embora minha irmã tenha ficado com um pouco de medo achando que ele tinha cara de psicopata. Imagino quantos absurdos ele vê todos os dias, trabalhando naquele CCZ.

E foi assim que mais um vira-lata ganhou uma casa, uma família e um novo nome. O seu RGA já havia sido feito com o nome Mickey, mas a gente achou que ele tinha mesmo era cara de Osvaldo. Como foi adotado no dia de Saint Patrick, passou a se chamar Osvaldo Mickey Patrício Martins Dias e Silva. E lá fomos nós carregando o cão hiperativo de Santana até o Butantã, num calor danado e num trânsito dos infernos. A mim, coube ir no banco de trás, segurando o bicho, que não me parecia muito familiarizado com viagens de carro,  estava assustado e mega agitado. Vim conversando com ele, fazendo carinho e aos poucos ele foi se acalmando. Não curtiu muito o passeio de elevador, mas ao chegar no apartamento da minha irmã já foi logo se sentindo em casa e se espalhando no sofá da sala.

Não quero parecer aquelas tias velhas cachorreiras, que só falam de cachorro, ficam postando fotos e tudo mais (embora também não tenha nada contra), mas escrevo este texto por um motivo. O mais impressionante nesta história e o que me levou a escrever este texto, foi a mudança na personalidade do animal em tão pouco tempo. Ainda hoje comentei com a minha irmã: “Eu estou achando que ele fica mais bonito a cada dia”. Ela concordou e disse: “Impressionante a mudança no semblante dele, não?”.

 Tá, eu concordo, ele não é nenhum galã, mas tem aquela beleza interior típica dos vira-latas. Beleza esta que vai se revelando a cada dia. De cão hiperativo, traiçoeiro, latidor e mordedor ele se tranformou num bebezão carente, com um olhar doce, que adora brincar com sua bolinha, lamber nossas mãos e pular no colo da gente. Tudo isso para dizer o óbvio, mas do qual nos esquecemos todos os dias: que diferença faz um pouquinho mais de amor na vida da gente, né?

Não sei a hora que o Osvaldo nasceu, então não dá pra fazer o mapa dele, mas fiz o mapa da adoção: Sol em Peixes, Lua em Aquário e Ascendente em Câncer!  Ah, e também Vênus e Júpiter em Touro no meio-do-céu. Peixes indica amor incondicional, Câncer a necessidade de um lar e de uma família,  Aquário a disposição para a amizade e Touro um apreço especial por afagos e carinhos. Tudo a ver, não?


 Vejam a diferença: na primeira foto, Osvaldo no colo do João, tentando morder o fotógrafo. Na segunda, na casa da Andréa,  já totalmente adaptado.


quarta-feira, 7 de março de 2012

A arte de uivar



No céu desta clara noite de verão, a Lua Cheia em Virgem se une a Marte, o guerreiro, formando um lindo triângulo com Plutão e Júpiter. Este, por sua vez, reverencia a bela Vênus, numa conjunção. Aspectos harmônicos assim tem sido raros no céu ultimamente, já que estamos em tempos de tensas quadraturas e oposições.


Embora me encantem as noites de Lua Cheia, eu, particularmente gosto muito da Lua Nova. Confesso que noites de Lua Cheia, às vezes me fazem sentir certa angústia, um aperto no coração, o que não acontece nas noites de Lua Nova. Acho que é porque, pelo menos no céu, as noites de Lua Nova são noites de união. Nestes momentos, a Lua exibe apenas uma fina lâmina do seu disco, porque está ocupada, desfrutando a companhia de seu amado, o Sol. Já nas noites de Lua Cheia, ela brilha saudosa, em oposição, refletindo a luz do companheiro à distância. E é justamente nestas noites que eu tenho vontade de uivar....E uivo.

Aprendi a arte de uivar com o Mil, meu falecido cão, que uivava muito afinadamente. Adorávamos nos comunicar através de longas e sonoras sessões de uivos, que quase enlouqueciam a vizinhança. Para o Mil, tudo era motivo para uivar: ele tinha um uivo de saudação e alegria, que vinha sempre acompanhado por latidos saltitantes. Tinha também um uivo de solidão, daqueles que vinham do fundo da alma e doíam no coração. Um uivo de tédio, preguiçoso, de quem não tinha coisa melhor para fazer. Uivava desconfiado, cada vez que ouvia o barulho do liquidificador e também tinha um uivo de implicância, dedicado a uma caixinha de música com bailarina, para a qual ele torcia o focinho.

Devo ao velho Mil este precioso ensinamento e recomendo a todos que se dediquem a tal aprendizado. Uivar faz bem à alma, à mente, ao coração, às cordas vocais. Impossível permanecer deprimido depois de um uivo bem uivado. Uivar alegra o espírito, alivia a ansiedade, sintoniza com os instintos e harmoniza com a natureza.

Há quem diga que os loucos uivam para a Lua. Eu acredito que as pessoas enlouquecem porque se esquecem de uivar.




Vejam só, na esperança de não ser uma uivadora solitária, fui procurar outros textos sobre o assunto na web. Olhem o que encontrei:


 http://midnighthowls.wordpress.com/tag/como-uivar/


E às mulheres, não poderia deixar de recomendar também a leitura deste maravilhoso livro:
 “Mulheres que correm com os lobos”, da Clarissa Pinkola Estés.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os aquarianos e o solitário caminho da individuação


- O que é isso, Arjuna? De onde vem esse desânimo? Não aja como um fraco. Elimine a covardia de seu coração e levante‑se! Você se lamenta por quem não merece lamento. Um sábio alegra‑se na adversidade e se mantém firme na alegria e, por isso, conquista a imortalidade. Aquilo que não é nunca se tornará algo e aquilo que não se tornou algo é porque não era. Assim como um homem veste roupas novas após tirar as velhas, assim também, após eliminar a carne velha, o homem se cobrirá com uma nova. No meio de toda ação, você deve permanecer livre de apego. Precisa aprender a ver com os mesmos olhos  uma pepita de ouro e um montículo de terra. A morte é certa para quem nasce, e o nascimento é certo para quem morre. Por isso, não deve lamentar algo que é inevitável. Essa essência vital no corpo de todo ser nunca morrerá, portanto, você não deve se lamentar. Cumpra seu destino sem vacilar. Se não participar da guerra como pede seu dharma, você será como um erro ambulante. Não se pode escapar de praticar um ato que deva ser praticado, e essa ação, com certeza, deixará sua marca latente. Você deve se preocupar sempre com a ação, e não com os frutos da ação. Não se torne a causa do fruto da ação, não fique preso à inação.

Assim, com muita benevolência, Krishna conduziu Arjuna através de todas as sutilezas de seu espírito. Mostrou-lhe as mais profundas manifestações de seu ser, onde era seu verdadeiro campo de batalha: lá onde cada um tem que lutar sozinho, sem guerreiros nem flechas, mostrou‑lhe a verdade e seus desdobramentos. (Bhagavad Gita)

No final das contas, é isso: tudo se resume a este imenso campo de batalhas onde temos que lutar sozinhos, e é por isso que o autoconhecimento assusta tanto, é por isso que a solidão é tão dolorosa. Vivemos a ilusão do compartilhar, mas no fundo estamos todos sós. Nascer é uma experiência solitária, morrer é uma experiência solitária, existir é uma experiência de pura solidão. Por mais que possamos compartilhar palavras, sentimentos, espaços e tempos, na alma, estamos sempre sós. Certas dores nunca poderão ser compartilhadas, certas batalhas só poderão ser vencidas na mais dolorosa solidão.

Esta experiência, na astrologia é representada pelo planeta Saturno, e no tarô pelo arquétipo do Eremita. Saturno é o desmame, é o fim do vínculo simbiótico com a mãe, o fim da ilusão do felizes para sempre. É a consciência de que não existe alma gêmea ou Best Friend Forever. O Eremita representa o exílio voluntário das coisas mundanas, da agitação da vida, o mergulho dentro de si, nas cavernas interiores, a fim de obter sabedoria e paciência. Com o Eremita aprendemos a ter humildade para aceitar que não podemos ter tudo aquilo que desejamos, aprendemos o silêncio e a serenidade, o desapego em relação ao resultado de nossas ações.

Saturno rege os signos de Capricórnio e Aquário. Em Capricórnio, aprendemos a superar os obstáculos materiais, vivemos o aprendizado de que desde bem cedo na vida será necessário lutar pela sobrevivência. Passamos a vida lutando pelo básico e quando conquistamos todos os bens materiais necessários à sobrevivência, nos descobrimos novamente sozinhos. Às vezes os obstáculos são emocionais: a timidez, a falta de confiança em si mesmo, a insegurança, a necessidade de aprender a lutar para se impor no mundo adulto, um mundo cruel, competitivo, devorador.  E essa é sempre uma luta solitária, onde é difícil conseguir contar com o outro, onde se devora ou se é devorado, lembrando que no mito, Saturno se alimentava dos próprios filhos,  e a batalha contra Saturno era a batalha para sobreviver e não ser devorado pelo próprio pai. Em Aquário, que além de Saturno recebe também a regência de Urano, o revolucionário, as coisas são um pouco diferentes. Em Aquário a luta é pela individualidade, pela fidelidade ao próprio espírito, à própria essência, algo também tão difícil numa sociedade que tudo massifica, pasteuriza, onde o ser igual é uma regra para ser aceito. A solidão aquariana é o preço pago pela consciência da própria diferença, da própria individualidade. O que deveria ser motivo de júbilo torna-se maldição. É o mito de Prometeu acorrentado e tendo o fígado dia a dia sendo corroído por um corvo, por ter legado o fogo - a luz, a consciência – à humanidade.

O mais irônico em Aquário é que este é o signo da coletividade, do compartilhar. Por isso os aquarianos são tão apegados aos amigos, aos grupos, às instituições. Tudo o que o aquariano mais deseja é pertencer. Porém, para ele, isto se torna quase impossível, pois para fazer parte de um grupo é preciso abrir mão da própria individualidade e este é justamente seu maior dom. Como pertencer sem deixar de ser, eis a questão. E assim, segue o aquariano pela a vida afora, com a ferida sangrando, fazendo parte de todos os grupos, sorrindo, conversando, criando vínculos superficiais, sem nunca conseguir mergulhar, sem nunca conseguir pertencer. Segue seu caminho solitário, consciente da “estranheza” que o separa dos demais. Segue seu caminho, sendo “o simpático”, o “maluquinho”, o ridicularizado. Segue incompreendido, conformado com a esperança de um reconhecimento póstumo. Mas este é seu destino, este é seu dharma: a liberdade. Poder entrar e sair de todas as estruturas sem se deixar prender a nenhuma, conhecer todas as idéias, as teorias, os modos e filosofias de vida a fim de criar a sua própria, ser original. O aquariano não faz citações, não se prende a religiões, não é fiel a nenhum teórico, ele cria, ele é vanguarda, ele é o portador do novo. O aquariano é sempre aquele que revoluciona, que traz as novidades pra dentro da família. É a ovelha negra, o marginal, o que não se encaixa, o filho de chocadeira. Ele é tudo, foi tudo, viveu tudo, mas nada o define, não há nada que o prenda. Ele não tem família, porque sua família é a humanidade e os amigos que faz em suas peregrinações pelo mundo. Ele não aceita rótulos, não suporta preconceitos, não compreende dogmas.

Nós devemos muito aos aquarianos. Salve Henfil, Carmem Miranda, Bob Marley, Charles Darwin, Julio Verne, Lewis Carroll, Chico Xavier, William Burroughs, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Mozart, Bertold Brecht. Salve todos aqueles que ousaram criar e pensar livremente, que carregaram pela humanidade o peso de dar a luz ao novo, que lutaram a solitária batalha da individuação.




Dedico este texto às minha queridas amigas aquarianas Clarissa, Laila e Maristela. E a meu irmão João André, grande aquariano com um coração de leão.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quando o segundo Sol chegar...


Documentário bem interessante sobre as profecias  para 2012. Uma verdadeira aula de astrologia e de sabedoria maia. Vale a pena!

Cassandra, Netuno e o pileque homérico do mundo


Fogo! Tróia será incendiada! O cavalo de madeira é esconderijo dos gregos! Ela viu, ela falou, ela avisou, mas ninguém ouviu, ninguém acreditou. Esta era a sina de Cassandra de Tróia, a sacerdotisa que recebeu de Apolo o dom da profecia, mas por ter recusado se deitar com ele, foi castigada pelo deus com a maldição de que as pessoas nunca lhe dariam crédito.Quando ela predisse a derrota de Tróia, e também a desgraça que cairia sobre toda a sua família, os orgulhosos troianos, chefiados por seu pai, o Rei Príamo, persistiram em sua loucura, até serem derrotados e escravizados. Depois de ter sido acusada de louca, levada como presa de guerra, Cassandra ainda vislumbrou seu próprio assassinato, do qual também não pode escapar.

    Creio que existam muitas cassandras e cassandros perdidos por aí. Talvez seja esta a sina dos que tem um mínimo de sensibilidade, algo raro ultimamente. Dos que têm os olhos abertos para enxergar a insanidade destes nossos tempos, e que ousam proclamar aos quatro ventos que “o rei está nu”.

Ai, deixa de besteira, por que você se preocupa tanto? Credo, você está ficando chata. Nossa, você se impressiona demais com as coisas. Calma você está exagerando, relaxa, também não é assim! Ou...Mas o que é que eu tenho a ver com a pobreza na África? Ah, o bicho já tá morto, larga de frescura e come aí. Nossa, mas que poucos mandam no mundo e a gente  só obedece todo mundo sabe, isso é óbvio né? Qual o problema, sempre foi assim, sempre vai ser e a gente bem que aproveita as regalias do sistema, esquece essa culpa!

O problema é que o “óbvio” pode ocultar muitas coisas, e para enxergá-las, basta ter um pouco mais de profundidade e um pouco menos de hipocrisia, mas nem todos estão dispostos a fazer “tamanho esforço”. È mais fácil ridicularizar, desacreditar, criticar e seguir com sua vidinha, afinal de contas, pra que tanto radicalismo e tanta ingenuidade, não é mesmo?

Nestes dias netunianos, talvez por estar com a sensibilidade mais aguçada devido às influências deste planeta sobre a terceira casa do meu mapa – casa da consciência – eu ando ouvindo tantos absurdos, que prefiro acreditar no ditado que diz que é melhor ouvir certas coisas do que ser surda. Mas tem hora que tanta omissão, tanta hipocrisia e tanta insensibilidade doem na alma.

 Ah, mas são os mecanismos de defesa do ego, as pessoas se escondem, se defendem porque sofrem, e ninguém quer entrar em contato com a dor e o sofrimento. Verdade. È como beber para esquecer. Deve ser por isso que a música  Cálice, do Chico Buarque não me sai da cabeça esses dias: “esse pileque homérico do mundo, de que adianta ter boa vontade...”. As pessoas estão embriagadas, adormecidas, anestesiadas, e não sentem mais a própria dor e muito menos as dores do outro. Fingem que não é com elas. A questão é que, se continuarmos assim, diz a minha Cassandra interior, não sei se haverão muitas esperanças para nossa espécie. Fugir da dor gera insensibilidade e a insensibilidade gera ainda mais dor, num circulo vicioso e destrutivo, onde a cobra morderá eternamente o próprio rabo.

Eu, como boa cassandra escorpionina radical e ingênua, adoro uma teoria da conspiração. Dessas que falam que o mundo está nas mãos dos Iluminatti, que por sua vez, são manipulados pelos reptilianos (nossa, que louca, só faltava isso mesmo!), seres alienígenas destituídos de sentimentos. Mas minha ingenuidade talvez pare por aqui. Não sei se eles realmente existem, mas prefiro não ser preconceituosa e manter a mente aberta. Independente disto, na minha opinião, os reptilianos somos nós.  Não sei se alienígenas, mas certamente alienados. Preferimos agir com base apenas em nossos mais básicos instintos de sobrevivência, escolhendo reagir e lutar por nosso “território”, enxergando o outro como inimigo. Agimos apenas com base no ego e nos nossos próprios interesses, sem ter a consciência da Unidade e da harmonia.

Nós somos os répteis  na medida em que nos recusamos a acessar nossos sentimentos, a sentir a dor e a tristeza que carregamos por nossas emoções feridas, pisoteadas desde a infância, por outros répteis adultos, que vem perpetuando a barbárie emocional e alimentando o homérico pileque da humanidade. Nós somos os répteis, pois preferimos causar a dor no outro, para não senti-la na pele. Nós somos os répteis e, insensíveis, fechamos nosso coração para o sofrimento do mundo, defendendo nosso miserável território, enquando hipocritamente afirmamos que o resto não é problema nosso.

Ai, mas você generaliza tudo. Generalizo, como boa cassandra, estou aqui para generalizar e perturbar,  é só assim que eu sei fazer. Quem quiser, se achar que minhas generalizações podem de alguma forma ser úteis, que faça o esforço de olhar para si, olhar para fora e ir além, tirando suas próprias conclusões e buscando se aprofundar um pouco mais. Afinal de contas – só para generalizar mais um pouquinho e usar também alguns clichês - a profundidade, assim como a beleza, está nos olhos de quem vê, né?






Obs: Netuno rege a sensibilidade, a compaixão, a espiritualização, a empatia, assim como o sofrimento, e os mecanismos de fuga utilizados para escapar das dores, como as drogas, a embriaguez, a alienação.

Netuno está no signo de Peixes desde o dia 03 de fevereiro e aí ficará pelos próximos 14 anos, tempo que nós, astrológos cassandrianos, esperamos que seja suficiente para que a humanidade desperte e abra seu coração.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Visões netunianas numa viagem de metrô



     Todos os dias, para chegar ao trabalho,  viajo pelos subterrâneos caminhos do metrô. Pego a linha amarela, na estação Butantã sentido Luz, faço baldeação na Consolação e sigo pela linha verde até a Vila Madalena. Hoje, como sempre, caminhava por este mesmo trajeto, mas estava com a cabeça cheia de pensamentos,  lembranças e o coração pesando como chumbo. Pensava sobre o amor e os amores, em como a gente sofre e em como é difícil a arte da relação com outro ser humano. Pensava na entrada de Netuno em Peixes e em como Netuno, por ser o planeta da compaixão, do sacrifício e  do amor espiritual, é visto como a oitava superior de Vênus, planeta do amor carnal e do prazer. Andava, perdida nestes devaneios, quando de repente, o amarelo do metrô se transformou em dourado, quase ofuscando a minha vista. Num raio de luz, surgiu Kuan Yin, a Senhora da Compaixão, que inundando meu ser com sua divina presença, começou a falar:

    - Abra seus ouvidos e me escute agora, pois tenho algumas respostas para as suas perguntas. Quero dizer que vocês, humanos, sofrem tanto por amor por um único motivo: vocês simplesmente não sabem o que é amar. Seus corações são pequenos demais para abarcar o amor verdadeiro, e por isso confundem o amor com uma série de outras coisas. Vocês querem ser, ter, possuir o ser amado e se esquecem de que o amor verdadeiro não foi feito para se dar apenas a uma pessoa em especial, e sim a todas elas. Não vêem que a natureza do amor é como a do Sol e da Lua, e emana seus raios a todos, sem escolher quem iluminar. O amor não é egoísta e nem narcisista, mas vocês insistem em sonhar, idealizar, projetar no outro o que não se esforçam em realizar. Para vocês, amar é esperar que o outro satisfaça todas as suas expectativas. Vocês matam e morrem por amor, porque amam com o ego, ou seja, não amam.

    Suas palavras, ditas num tom doce e suave, ardiam como fogo. Enquanto ela falava, eu caminhava rumo a estação Consolação, para pegar a linha verde,  me sentindo cada vez pior. Estava sufocada, com falta de ar. Minha cabeça rodava e para completar, eu ouvia como num rádio tocando sem parar em minha mente a música “O amor é filme”, do Cordel do Fogo Encantado!  Nada poderia ser mais bizarro, mas ainda assim, tive a audácia de continuar e  desafiá-la:

    - Quem é você, mulher, que se diz a deusa da compaixão, mas ao invés de me acolher, só me faz sentir ainda mais infeliz?

    -  Não se zangue comigo, vim para te abrir os olhos,  para te ensinar e  falo tudo isso com a maior compaixão. Mas este é o problema de vocês, seres humanos. Vocês só querem o bom, o belo, só querem receber elogios, compartilhar alegrias, sem saber que o amor é aquele que está presente no melhor e no pior. O amor verdadeiro não é o que apenas acolhe, e sim o que mostrando a verdade,  liberta e ministrando o remédio amargo, cura. Vocês fazem promessas de amar na alegria e na tristeza, mas disso logo  esquecem nas primeiras dificuldades. E aí lamentam os amores perdidos, dos quais só restam rancores, sem saber que o amor de verdade não se perde, apenas muda de forma, para se transformar num amor maior. O amor verdadeiro nunca poderia virar rancor, porque o rancor nada mais é do que a frustração de desejos do ego,  e o ego, pobre infeliz, não pode amar.

    A esta altura, eu mal podia respirar, e com o coração apertado, pegava a esteira lotada de gente, que unia a linha amarela à linha verde.

    - É isso mesmo, preste atenção ao seu caminho, dizia ela. Para vocês, ainda é difícil fazer a transição do amarelo para o verde. O chakra de cor amarela, esse aí, perto do umbigo para onde vocês tanto olham, vos conecta ao ego, aos sentimentos de posse e de poder e é só com ele que vocês sabem amar. Para vocês, é difícil desapegar dos sonhos, das ilusões, das projeções que criam os amores impossíveis, amores não correspondidos, amores perdidos, falsos amores. Pois o amor nunca pode se perder e todo amor verdadeiro é correspondido, pois o amor só sabe amar. O amor verdadeiro é sempre possível, o que não é aceitável é querer que o outro lhes dê aquilo que ele não pode ou não quer dar, pois tais atitudes não passam de caprichos de crianças mimadas. O amor verdadeiro não aprisiona, nem amarra, apenas liberta. A linha verde é a do chakra do coração, aquele que é capaz de processar e se abrir para o amor incondicional. Mas para vocês é difícil permanecer nesta faixa vibratória, pois para isso é preciso abrir mãos dos desejos e apegos do ego infantil. Vamos lá, respire fundo,  abra seu coração e me ouça, para que esse chumbo possa finalmente ganhar o brilho do ouro.

    Todos os dias você faz este mesmo caminho, mas não olha direito por onde anda. Vá do Butantã rumo à Luz. Transforme a mágoa, a dor e o ressentimento,  venenos dos escorpiões e das serpentes, e deles extraia o remédio que cura, pois só assim transmutará trevas em Luz. Ao mudar do amarelo para o verde, encontrará a Consolação. Siga rumo às Clínicas, fazendo seu trabalho de cura.  Na  Sumaré, onde está o Santuário de Nossa Senhora, reverencie a Grande Mãe, aquela que ama incondicionalmente, e deixe que este amor preencha seu coração. E assim, quando menos esperar, chegará a seu destino e compreenderá os mistérios do Amor de Madalena.

    E, antes de desaparecer numa nuvem dourada rumos às terras do oriente, arrematou: E lembre-se, o verdadeiro amor é fogo encantado e não cena de filme ou historinhas de cordel.

    Fim da viagem!